Memória

 

O que importa a superfície d’água
Se a vida inteira é relembrar
O abisso do lago negro em minha alma.
Talvez a tortura de um ligeiro olhar
Valha um último adeus
Ao que há tanto venho tentando assassinar.

Mas a superfície não me deixa enxergar
E é apenas a memória
Que sustenta a tragédia acima do espelho escuro
Por intermédio do qual me lanço mais um olhar.

Cada badalada que os sinos do tempo tocam
Pulsam as ânsias da morte em minhas entranhas
E vibram a superfície do espelho negro
Em co-centros que são a porta do abismo em meu coração.

 

                                                                                 Anátema

Meras Semelhanças

diferente

Masoquismo também é amor

Punição também é recompensa

Pesadelo também é sonho

Ignorância também é virtude

Estimulo também é manipulação

 

Ser ateu também é crença

Ser feliz também é tolice

Ser honesto também é doença

=

O CUME

Não é o ritmo, não é a rima

Não é a moda, não é o modo

Não é o método, nem é a métrica

Não está no manual e nada é pessoal

 

É o manual que fiz das pessoas que conheci

É o método que criei da métrica que traçaram

É a moda que segui do modus operandi que ensinaram

É o ritmo que inventei com as rimas que me encantaram

 

Não é o dia, nem é o poente

Não é a virilidade de quem se acha potente

Não é a virtude do bem presente

Não é a caridade do benfeitor ausente

 

É a sinceridade de quem diz “bem feito”

É a virtude que há em se ausentar

É a virilidade que existe em falhar

É um dia que só nasce quando eu acordar

 

Não é o cume, nem a base

Não é a casa nem o camicase

Não é seu clássico nem meu ‘populaxo’

Não é a frase nem todo o abecedário

 

É um alfabeto que não diz nada

É a palavra que emudece

É a morada que desaba

É o topo onde só se chega,

QUANDO TODO RESTO ACABA

 

 

Eu permaneço onde sempre estive

À espera do talvez ou do nunca mais.

Agora é tudo o que posso fazer,

Presa ao meu obsoleto papel diante da vida que escoe.

Perdi as possibilidades mais fáceis

E a certeza de que te veria outra vez.

E de algum modo, talvez, essa certeza me redima.

 

Não importa o que digam as músicas ou os poemas mais óbvios,

Todos os finais são tristes quando as histórias não têm fim.

O que de mais autentico posso te oferecer que a minha dor?

Se tudo se desfizer,

Se ao final essa for a única certeza

Lembre-se de que eu permaneço onde sempre estive

À espera de um talvez

Ou de uma saudade que nunca se irá curar.

 

                                                                                                                Anátema

Eu não busco as cicatrizes do que sangro.

Quero é abrir minhas feridas para que elas sangrem até se tornarem estanques.

Eu não busco lágrimas furtivas, emocionadas

Ou a alegria compartilhada.

Eu busco o pranto sem o ressentimento do constrangimento de se mostrar,

A fragilidade de um estado vulnerável,

O conforto do silêncio acompanhado

E o abandono de um abraço confiado.

 

                                                                                                  Anátema

Reflexão

Você sempre tem um espelho à frente
E ele sempre tem a mesma opinião
Você sempre está uma opinião à frente
E ela sempre traz a mesma reflexão

Ele esta a um quarto da distancia
Você sempre mataria por isto
Ele esta no quarto da instancia
Você nunca se apossaria disto

Eu sempre vou ao seu aposento
Você me faz ouvir o seu tormento
Eu queria te abraçar no momento
Em que você me mostrou todo ressentimento

Ele faz rimas boas?
Ele te faz rir com freqüência?
Pois o seu sorriso me é caro
E pobremente rimo por isto!

A CASA DAS CORES

Onde você mora
Aonde quer que minha dor se esconda
É pra onde vou
É aí que eu quero morar

Onde estão as cores
Aonde quer que o arco-íres acabe
É por lá que estou
A procurar em quem vou me encontrar

Onde estás agora
Aonde quer que decida dormir
No meu sonho noite afora
Ou num pesadelo
Pode decidir
a casa das cores

Muito bom, muito bom mesmo…

Esse é um trecho do livro que eu estou lendo, estou lendo faz um tempinho, mas, enfim, estou lendo. Achei muito bom, cada palavra esta tão bem colocada que senti necessidade de  compartilha-lo:

 

“Eu tenho a maldição da razão; sou pobre, solteiro, depressivo. Há meses reflito sobre a doença de refletir demasiadamente e estabeleci com toda a certeza a correlação entre a minha infelicidade e a incontinência da minha razão. Pensar, tentar compreender nunca me trouxe nenhum beneficio, mas, ao contrário, sempre atuou contra mim. Refletir não é uma operação natural e fere, como se revelasse cacos de garrafa e arames farpados misturados com o ar. Eu não consigo deter o meu cérebro, diminuir o seu ritmo. Sinto-me como uma locomotiva, uma velha locomotiva que se precipita nos trilhos e que não poderá jamais parar, porque o combustível que lhe dá a sua potência vertiginosa, o seu carvão, é o mundo. Tudo o que vejo, sinto, escuto se engolfa no forno do meu espírito e o impele e faz funcionar a pleno vapor. Tentar compreender é um suicídio social, e isso significa já não desfrutar a vida sem sentir-se, a contragosto, e ao mesmo tempo, uma ave de rapina e um abutre que despedaça os seus objetos de estudo. Freqüentemente matamos aquilo que buscamos compreender porque, como para o estudante de medicina, não há verdadeiro conhecimento sem dissecção. (…) Eu vivi demasiadamente nos necrotérios; hoje, sinto aproximar-se o perigo do cinismo, do amargor e da infinita tristeza; rapidamente nos tornamos dotados para a infelicidade. Não é possível viver demasiadamente consciente, demasiadamente pensante. “

(Martin Page, “COMO ME TORNEI ESTÚPIDO”)

 

                                                                                                                        Surto

Penso (e não ajo), logo (in)existo

Penso nas canções lindas
que poderia escrever.
Penso em como o tempo passa
sem agente perceber.
Penso que penso demais
e por isto não me deixo viver,
pois deixo o tempo passar
sem perceber…

 

 

Minhas asas decaíram.

Meus segredos estão em risco.

Ainda assim, não me convenci

De que é chegado tempo de aportar.

Ainda danço a mesma música triste,

Mas agora não choro mais.

Ainda lamento os passos vacilantes,

Mas agora não ando só.

 

Se eu estacionar

E te pedir tuas mãos

Prometes não destruir

O que me trouxe até aqui?

 

                                                                        Anátema