Esse texto é mais uma contribuição do amigo Otávio para o “dois loucos”. Apresenta uma visão crítica da vitória do Rio de Janeiro como sede dos jogos olímpicos de 2016, num momento em que o ufanismo empolga, a necessidade de investimentos em setores mais urgentes torna-se secundária e, principalmente, ampliam-se as possibilidades de corrupção, assombração cuja ameaça aumenta, mas que incute menos temor nesse tempo de euforia. Fica aqui um reforço do convite para uma visita ao blog do autor: Retratos Capitais

 

FANTASMAS DO PASSADO

O Brasil foi dormir na quinta-feira do dia primeiro com sua dívida aumentada em R$30 bilhões. Isso numa estimativa bem otimista, pois esse é o valor aproximado para a realização das Olimpíadas de 2016 que ocorrerão no Rio de Janeiro, após cidades como Madrid, Chicago e Tóquio serem preteridas. Por mais incrível que isso possa parecer, muita gente comemorou esse endividamento com festa, tanto em Copenhague quanto na praia de Copacabana. A escolha pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) da sede no país vem somar ao gasto com a Copa do Mundo de 2014, cujo orçamento girará em torno do mesmo valor. Mas quem duvida que o preço de ambos os eventos vá multiplicar com o tempo? Antes mesmo de ser escolhida, a candidatura do Rio de Janeiro já consumiu cerca de 180 milhões de reais em recursos públicos, a mais cara de todas as candidaturas. (1)
O maior fantasma do sonho olímpico brasileiro começou com o Pan-americano de 2007. Desde aquela época, o Pan foi encarado pelo o governo como um mero aquecimento para as Olimpíadas, uma espécie de demonstração para o COI da capacidade da cidade para sediar o evento no futuro. Mas o que vimos foi um evento deprimente, mais pela fortuna de dinheiro público indo pro ralo do que pelo desempenho dos atletas. Ganhamos medalha de ouro em superfaturamento de obras, em incompetência administrativa, em ineficácia de projetos e embromação política.
Para ter uma pequena medida do que pode estar vindo por aí, é só ver o gasto de R$ 3,8 bilhões do Pan de 2007, valor quase cinco vezes maior que o inicialmente previsto. O Tribunal de Contas da União (TCU) cobra até hoje a devolução de R$ 20 milhões aos cofres públicos que não tiveram seu uso justificado, modo polido de dizer que foram desviados para o bolso alheio.
Podemos também citar o episódio dos aparelhos de ar-condicionados (2)  . O Ministério do Esporte requereu para o Pan a aquisição de 1628 aparelhos desse tipo, no entanto apenas metade foi instalada. E o pior é que ninguém sabe dizer onde está o restante dos aparelhos adquiridos. O relatório de Marcos Vilaça do TCU atesta o seguinte: “Quanto aos condicionadores de ar, a empresa Fast apresentou novos elementos, inclusive cópia das notas fiscais que demonstram a aquisição de todas as unidades contratadas. É, portanto, bastante verossímil a hipótese de que os equipamentos existam fisicamente.”.
Como é fácil de supor, nenhum político fala disso nas entrevistas, nas campanhas e muito menos no discurso da vitória. Nem uma só palavra disso você vai ouvir dos membros da comitiva que foi até a Dinamarca para a cerimônia do COI. Eles sabem apenas pintar um panorama que de tão otimista e transformador, soa utópico.
A notícia da nomeação do Rio como sede das Olimpíadas veio na mesma semana da revelação do vazamento da prova do Enem, causando um prejuízo de no mínimo R$ 30 milhões aos cofres públicos. Casos como esse suscita a dúvida se algum dia seremos capazes de realizar decentemente um evento de porte, qualquer que seja a sua natureza, sem a suspeita de estarmos sendo descaradamente roubados. (3)

 

SÍNTESE DA SÍNTESE

Correntes doutrinárias:

           

Fulano disse A

Sicrano discordou e disse B

Beltrano não duvidava de Fulano, mas tinha uma queda por Sicrano, então juntou A+B e disse C, chamou pomposamente a corrente de mista.

Aí chegou um Alemão que disse D, provou que todo mundo estava errado, inclusive ele, e concluiu com E. Que na verdade era o que todo mundo já tinha dito, inclusive ele.

 

                                                                                                                                         Surto

RECADO AO VÍRUS H1N1

Hoje fui dar uma voltinha sem compromisso pela cidade. Eu raramente deixo meu gueto, mas havia chegado até mim a notícia de que uma colega de trabalho andava fazendo burrices por lá, então resolvi conferir a informação pessoalmente.

Logo na saída do aeroporto uma cena me surpreendeu. Um assaltante abordou uma moça grávida:

___ Passa a bolsa, senão espirro___ Ele falou em tom ameaçador, já engolindo ar num preparo simulado de espirro.

A mulher se descontrolou. Com um grito jogou a bolsa no meliante e saiu correndo desesperada. O sujeito tornou a colocar a máscara branca sobre a boca e saiu satisfeito com a empreitada bem sucedida. Graças à gripe suína essa noite teria pagode no barraco.

Foi temerosa, mas com um pouquinho de orgulho também, que encontrei a cidade tensa: pessoas suando frio, olhares desconfiados. As bolsas traziam todo o arsenal necessário para enfrentar os novos tempos. Alguns falavam em pragas do apocalipse, outros em terceira guerra mundial, armas biológicas, terrorismo… De repente alguém espirrou. Gritos, gemidos, correria. Os mais preparados sacaram da bolsa uma máscara de ar e detergente em gel para lavar as mãos. Alguns entraram em pânico e correram assustados. Os mais próximos do indivíduo possivelmente infectado choraram de medo de uma contaminação quase certa. A população presente partiu para cima dele que em segundos foi dizimado. Morreu linchado o coitado. O corpo ficou no chão, irreconhecível.

O portador se foi, mas o pânico permaneceu. Os carros buzinavam querendo se afastar logo da área. Alguns motoristas perderam a razão e abandonaram seus carros. A área tornou-se o caos. Nos sinais não se vendia mais garrafinhas de água, aliás, nem água se bebia mais, pois era perigoso. E se beber água era perigoso, respirar era suicídio. O que trazia lucro para os subempregados era desinfetante em gel, uma maravilha, não precisava nem lavar as mãos depois do uso, portanto se podia usar em qualquer lugar onde tivesse gente, a qualquer hora, fosse na igreja, fosse no trabalho, antes e depois de abrir uma porta… Afinal, maçanetas são fontes de transmissão importantes e até então negligenciadas.

Os representantes do povo começaram a confabular. O caso era grave, era uma pandemia, o melhor seria colocar a cidade em quarentena. E declararam guerra à gripe do porco.

Chego a ter pena do pobre vírus. Só esta aqui para sobreviver, como a maioria dos seres vivos desse planeta e dos outros, caso exista vida nos outros… Se tivessem permanecido nos porcos, ou ainda, se tivessem escolhido competentemente (estou começando a achar esse vírus semelhante a algumas autoridades) atacar apenas a parcela correta da população, eles seguiria o percurso da sua existência com tranqüilidade, sem o incômodo combate maciço contra ela. Se bem que pode não ter sido uma escolha incompetente, toda essa confusão pode ter sido resultado de um bruto azar. Sabe como é o destino, quando decide fazer das suas é o pior dos carrascos. Esse vírus tinha 90% de chances de atacar as pessoas corretas. Destaco: 90%. Meu amigo eufemismo diz que são os “sem recursos”. Essa é a porcentagem de pessoas do mundo que não desperta muita atenção de quem tem poder de atacá-lo. Olha o leque de opções! A oferta era enorme. Tinha gente na áfrica, na Ásia, na América do Sul. Gente para encher o estômago de qualquer parasita com tato para a sobrevivência nessa “selva capital”. Da humanidade inteira ele só não podia escolher os 10% restantes, que são os importantes, quem têm dinheiro, se não têm, arranjam. Mas o pobre vírus me faz a escolha errada, daí consegue como inimigo uma racinha perigosa capaz de meter medo em psicopata: a indústria farmacêutica. Declarada a guerra, o pobre vírus não pode mais fazer nada, a não ser lutar até a morte… E ele irá fatalmente perder, são raríssimos os casos dos que ganharam numa luta aberta (o HIV está aí, firme e forte, mas o vento parece estar mudando de direção, os homens já falam em cura e em vacina).

Mas ele também tem a opção de entrar em acordo com o inimigo e começar a trabalhar para ele. Cá para nós, se eu fosse o H1N1, covarde que sou, engoliria meus brios e me renderia. Melhor trabalhar para o inimigo que morrer em batalha. Ele pode também mudar seu campo de batalha, nesse caso, tem chances não de ganhar definitivamente, mas de permanecer lutando, vencendo a grande maioria das batalhas. É só se guiar por suas colegas parasitas causadoras da dengue, tuberculose, leishmaniose, esquistossomose, malária, doença de chagas, doença do sono… elas estão sempre presentes, sempre vencendo batalhas de uma guerra sem fim, mas são sobreviventes. Isso porque fizeram a escolha certa, atacaram aqueles de que falei antes, os noventa por cento da população, os desimportantes. Se você, H1N1, estiver me lendo agora, siga esse conselho estratégico de sobrevivência: juntes-se a nós, e seja uma doença negligenciada. Eu sei, o nome pode não soar muito digno, mas sobre o estigma dele podemos sobreviver, pelo menos até o apocalipse. E olha, não é ruim não, temos um cardápio amplo, podemos nos refestelar, é só saber quem podemos atacar. Para isso temos uma central de informação que é muito eficiente. Para se juntar à nossa aliança “DNDi em A”(doenças negligenciadas em ação) basta me enviar um e-mail: malária@hotmail.com. Mas se antes de se associar você quiser se informar melhor, conversar com quem já faz parte, procure a Dengue, nossa mais nova representante. Deixe seu telefone de contato por depoimento no Orkut, site de relacionamentos que tem facilitado muito a comunicação. Você já tem Orkut não é?  Nesses tempos atuais ele é fundamental para a nossa sobrevivência. Planejamos utilizá-lo como fonte de contaminação por ocasião do apocalipse, temos pesquisado com esse intuito… Junte-se à nossa luta, H1N1, você não precisa lutar sozinho. A união faz a força!

                                    

                                                                                                                                                                     SURTO

 

gripesuinacacoepig

TERRITÓRIO V – Vampiros em Guerra!

Porque alcatéias são para lobos

Eis a prova de que não existe tema batido quando há novas perspectivas. Nesta seleta organizada por Kizzy Ysatis (Clube dos Imortais e Diário da Sibila Rubra), a discórdia é pano de fundo para o exercício da criatividade de 20 escritores meticulosamente colhidos. Aqui, o vampiro é a metáfora de nossos erros, o contraste que evidencia o homem.

prefácio: Giulia Moon
capa: Octavio Cariello

COMPRE AQUI:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2846038&sid=87462812011723430051557739&k5=20FB65B&uid=

Compareça ao Coquetel de Lançamento

13 de agosto (o dia do vampiro)
quinta, às 18h30
Livraria Martins Fontes
Av Paulista, nº 509

Entrada franca

TERRACOTA EDITORA http://www.terracotaeditora.com.br

 

 

LANÇAMENTO- TERRITÓRIO V

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